AHé

“Lá no fundo, quando a Lua está descendo pra lá, bonita, os bichos estão dançando, lá no fundo. É lá que vamos.”

É assim que uma pajé Karipuna refere-se ao Turé, ritual em que seu povo dança, bebe e canta com seres sobrenaturais. Isso acontece num final de semana de lua cheia, no mês de outubro. Marcelo Min certamente não sabia disso quando fez a foto da grande lua surgindo da mata escura, numa noite de outubro, quando os bichos já não estavam lá dançando. Também já não havia os Karipuna, só o barracão e a placa: Lanchonete Madeira.

Justificada pela ordem e progresso, a história se repetia, desta vez em Jaci Paraná, distrito de Porto Velho, Rondônia. As obras da usina de Jirau, no rio Madeira, aconteciam na base do custe o que custar e lá estava Marcelo Min para documentar parte do drama, em companhia da repórter Ana Aranha.

Durante o tempo em que esteve envolvido com a captação de imagens para um documentário, seu olhar essencialmente fotográfico procurou transcender a dureza do fato. Além de um entusiasta da técnica, buscando novos ares no vídeo ou experimentando montagens panorâmicas, Min sabia perceber a natureza poética e a carga simbólica de uma revoada de andorinhas ou de um banho solitário de uma velha indígena, eternizada num gesto quase ritualístico em seu cotidiano já impregnado do homem branco.

Marcelo, que não queria ser o homem branco, se deixava levar pelo sentimento expresso num olhar perdido. Queria ser a criança de braços abertos, o peão no brega. E também o Karipuna, se autorretratando na mesma condição, misturado a uma samaúma.

Ahé é a autodenominação desse povo e quer dizer “gente verdadeira”. Numa época em que o jornalismo lida de modo muito peculiar com a verdade, Marcelo Min deixa mais um recado sobre o que verdadeiramente interessa. A vida quis que sua primeira grande reportagem fosse no rio São Francisco e sua última, no rio Madeira. Como o rio, Min seguiu seu fluxo, independente de todo e qualquer obstáculo.

Marcello Vitorino

"Over there, far inward, when the moon is coming down, beautiful, the animals are dancing, far inward. That's where we're going."

This is how a Karipuna shaman refers to the Turé, a feast when Karipuna people dance, drink and sing with supernatural beings. It takes place on a full-moon weekend every October. Marcelo Min certainly had no knowledge of this when he shot the full moon emerging from the dark woods on an October night when the animals were no longer. There were also no Karipuna, just a shed and the sign: Madeira Snackbar.
In the name of progress, history repeated itself, this time in Jaci Paraná, a district of Porto Velho, in the state of Rondônia, Brazil. The works at the Jirau plant on the Madeira River moved forward no matter the cost, and there was Marcelo Min to document part of this drama, along with reporter Ana Aranha.
During the time he was involved in a documentary shooting, his essentially photographic gaze sought to transcend the harshness of the facts. In addition to being an enthusiast of the craft, searching for new airs in video, or trying out panoramic montages, Min was able to grasp the poetic nature and symbolic load of a flock of swallows or a solitary bath of an old indigenous woman, eternalized in a quasi-ritualistic gesture of her daily life, fully saturated by the white man.
Marcelo, who did not want to be the white man, let himself be carried by the feelings of a lost look. He wanted to be the child with arms wide open, the low-paid in the brega dance. And even the Karipuna. In his self-portrait mirroring a Karipuna man merged with a kapok tree.
Ahé means "real people". At a time when journalism deals with reality in a very peculiar way, Marcelo Min leaves us with one more message about what really matters. Life wanted his first major photo shoot be of the São Francisco River, and his last one of the Madeira River. Like rivers, Min followed his course, regardless of obstacles.

Marcello Vitorino

 

A exposição Ahé foi concebida e produzida pelo Acervo Marcelo Min em 2017

Produção executiva: Luciana Benatti
Curadoria: Marcello Vitorino
Tratamento de imagens: Estúdio Oca
Impressão e montagem: Espaço opHicina

Agradecimentos: Ana Aranha, Araci Queiroz, Arthur Min, Daniel Rossi, Eduardo Camara, Eduardo Foresti, Fabiano Zig, Luciana Carvalho, Lucrécia Couso, Luisa Paiva, Mikka Mori, Pedro Min, Rogério Albuquerque, Sabrina Camara


Série Numerada

  • Série de 12 imagens de autoria de Marcelo Min

  • Fotografias realizadas em 2012 em viagem a Jaci Paraná (RO)

  • Curadoria: Marcello Vitorino (2017)
  • Impressão com pigmento mineral sobre papel 100% algodão Hahnemühle Photo Rag Baryta
  • Impressas no Espaço opHicina, em São Paulo
  • Tiragem: 2PA + 10 (para cada formato)
  • Formatos: 50 x 75 cm, 30 x 45 cm e 100 x 150 cm
  • Cópias assinadas e numeradas
  • Acompanham certificado de autenticidade
 


Veja o trailer do documentário: